29/11/2009

sobre um imbecil

minha poesia é feia
e fraca
quase sem metáforas
sem belas
desorganizada
minha poesia crua
sem calcinha
poesia feia
não tem perfil no orcute
minha poesia perdida
nem endereço ou hora
poesia que nasce e desce com a mãe em pé
espatifa e chora o chão mas
ninguém dá por ela
mesmo assim continuo tentando-a:
epifania de um cone perante a vida

29/11/2009

do cinema pra cá

cada vez que desciam olhos
definiam beijos em linhas
de médio-curto espaço
e guardavam os nossos
para mais tarde

eram cinema e cores pastéis
só tinham porquês pra assistir
e guardar-se pra nunca mais…

26/11/2009

“all about the girl who came to stay”

1

antes de sair
deixe duas desculpas
uma pra tudo que disse
outra pra tudo que não

sei que nos amamos indelicadamente
rompendo um com os pavores do outro
que tateamos nosso escuro em prazer
curvando a lâmina do tempo
em cima de poucos lençóis

sei que nos amamos sem jamais dizê-lo
pois não queremos ferir o fino trato do destino
que nos despedaçaria se tentássemos

deixe suas desculpas escritas
por decreto, com desenho ou assinatura
deixe com a certeza que me quis em todas as palavras
e que quis ainda mais no que conteve ai dentro de si

mas, antes de sair
deixe minha luz apagada
pois quero degustar o que sobrou
de você na minha boca
e que logo vai passar

2

a aspereza da solidão
está na ausência ou em mim?
é essa que se faz assim
ou é a que deixo fazer?

não importa, o final é amargo desde o início
então não é difícil perguntar-se porque não

esse nublado que se faz lá fora resiste
a velocidade e a pressa
com ele pergunto se você não quer ficar
quem sabe beber alguma coisa

quem sabe quebrar a efemeridade constante
arriscar gostarmos
disso – tiro vendado no abismo; atrever-se resistir
ao teste do tempo – que chamavam amor


…………………….
o título é devido essa música:

23/11/2009

o peso de entender

Ao entender algo, jogamos com o que temos (nosso entendimento anterior, um projeto prévio de sentido) contra o que vem de novo. No conflito, o que tínhamos se refaz, frente à compreensão que acontece, e o que vai se tornar é uma possibilidade (entre tantas) que está em jogo no campo da linguagem. Tais projetos são como cubos-mágicos sem finalidade, sem lados certos, sem fim – servem para tudo e, por isso também, para nada –, configurações de entendimento do mundo que são remodeladas nas experiências vividas e que articulam-se transformando-se num saber novo.

Quando enfim nossos conceitos se assentam, passada a tormenta da experiência e do projetar-se da consciência, assentam certo peso em nós – este que nos prende ao chão, ao mundo, nos faz reais. Ter peso é ter existência, e o peso não decaí no ou por acaso; vem com o findar do movimento que escolhemos realizar dentro desse jogo do compreender (a peça de xadrez é levantada para chegar ao seu destino, a nova posição, e lá é assentada e solta, equilibrando-se unicamente em seu peso próprio: nós também partimos da posição inicial e, para ganhar novos horizontes, somos movimentados pela nossa compreensão das experiências – e não há posição errada, má, ou qualquer valor do tipo). O peso é essencial em nossa existência, é nosso Da (aí): por isso somos o Dasein: o ser-aí.

Já, ao contrário do peso, a leveza nos ascende e nos dá visão perspectiva (mais elevada e panorâmica, mas também distante). Mas ascender é também flutuar, tirar os pés do chão, sair do domínio real: ser nuvem passageira, que pode chover em qualquer lugar sem que alguém note.

A melhor perspectiva é a do ponto alto, da montanha difícil de escalar. É o árduo movimento de subir, sem tirar os pés do chão e sem flutuar. Mas, num mundo sem bússola e sem mapa, num mundo onde Deus está morto e ninguém está se sentindo muito bem, onde nossa existência é ridiculamente pueril e temos consciência disso, como lidar com a “insustentável leveza do ser” na caminhada para algum entendimento “do alto” do que fizemos com todo esse tempo que passa comendo nossos calcanhares?

Mais pavoroso ainda é: e pra que subir? Cada passo pensado no futuro é incerto, e todo trajeto que você bolar e arremessar vai se perder… toda lanterna que apontar vai ter sua luz dissolvida na nebulosidade adiante, pois “tudo que é sólido desmancha no ar”. E se não é pra subir, se não é pra olhar pra trilha que deixamos ou pra frente, ou mesmo para os lados… que porra fazemos com todo esse peso que carregamos com o que entendemos do mundo e todos esses dias que precisamos atravessar?

Certeza é que no fim do jogo de todos os entendimentos estará lá o Game Over, um gosto na boca e uma cor nos olhos… o resto é a Incerteza de Heisenberg.

21/11/2009

conflito

são a música de poucos versos
amarrada confusão de braços
onde o pulsar indica as bocas,
o teto,
e a sede

são deriva do instante-toque
no limite da cama
divergem /convergem,
derretem e espasmam
tudo mais desmancha no provocar

ei,
soe e dance solta,
pra ver se aninha aqui feito gata
ou lhe ver nua
equilibrando-se sobre seu calor
daí acariciar sua pele-pêlo
procurando meu tempo que passa em você